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Regras da Vaquejada: Como o Juiz Decide se o Boi Valeu ou é Zero

Quem assiste a uma vaquejada pela primeira vez costuma sair com a mesma dúvida: por que aquele boi valeu e o outro, que pareceu igual, foi julgado zero?

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A resposta está no regulamento — e as regras da vaquejada são bem mais detalhadas do que a arquibancada imagina.

Não é o juiz decidindo no olho: existe um conjunto de critérios escritos que definem, centímetro a centímetro e segundo a segundo, o que conta e o que não conta.

Este guia percorre as regras oficiais de julgamento aplicadas nas provas chanceladas pela Associação Brasileira de Vaquejada (ABVAQ), cujo Regulamento Geral de Vaquejada foi assinado em João Pessoa, em 29 de dezembro de 2016, e é a base normativa da modalidade no país.

Nas provas oficiais do cavalo Quarto de Milha, o regulamento da ABQM se soma a ele — e os dois se complementam, como você vai ver no fim do texto.

As faixas: é ali que tudo se decide

A pista de vaquejada tem duas demarcações que organizam o julgamento inteiro.

A faixa de pontuação é formada por duas linhas paralelas traçadas com cal sobre o colchão de areia. É dentro desse espaço que o boi precisa ser derrubado.

O regulamento da ABVAQ define a distância entre essas duas linhas em 9 metros — embora a medida de 10 metros seja a mais citada no meio e apareça em materiais da própria associação e em regulamentos de eventos regionais. Voltaremos a esse ponto adiante.

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A faixa de tolerância é diferente: trata-se de uma linha perpendicular à pista, demarcada nas imediações do ponto de partida do boi. Ela não pontua nada.

Serve como referência para julgar o comportamento do boi logo na saída — se ele roda, se muda de direção, se a corrida sequer começou de fato.

O colchão de areia também é normatizado: a espessura mínima é de 40 centímetros. Esse número não vem só do regulamento associativo.

A Lei federal nº 13.364/2016, com a redação dada pela Lei nº 13.873/2019, exige areia lavada com profundidade mínima de 40 cm na faixa onde ocorre a pontuação.

Já o comprimento total da pista não é padronizado por nenhuma norma da ABVAQ ou da ABQM localizada até aqui. As referências disponíveis variam bastante de parque para parque, e não existe uma medida oficial única.

A regra central: quando o boi vale

O artigo 19 do regulamento da ABVAQ concentra o critério principal. O boi só é válido se cumprir duas condições ao mesmo tempo:

  1. Soltar-se completamente entre as faixas de pontuação;
  2. Ao se firmar, estar entre elas.

Parece simples, mas cada palavra dessa frase gera um desdobramento. E é nos desdobramentos que mora a discussão de pista.

A primeira faixa é intocável pela parte de cima do boi

O regulamento faz uma distinção anatômica precisa. A primeira faixa não pode ser tocada pela parte superior do boi — considerando superior tudo que fica do jarrete para cima, o chamado coxão.

A parte inferior, do jarrete para baixo (a perna), pode tocar a linha sem invalidar o boi.

Essa é uma das causas mais comuns de zero contestado: para quem está na arquibancada, o boi caiu dentro. Para o juiz, o coxão tocou o cal.

Os 50% e os 30 segundos

Nem todo boi que sai parcialmente da faixa está perdido. Depois de adentrar a faixa de pontuação e se soltar completamente, se o animal ficar com no máximo metade do corpo para fora, a dupla tem o direito de trabalhar para reposicioná-lo entre as linhas.

Há duas condições. A primeira é que o reposicionamento não pode envolver pisoteamento do bovino. A segunda é o prazo: o trabalho deve ser concluído em até 30 segundos.

Se o juiz entender que mais de 50% do corpo do boi está fora da faixa e julgar zero, a dupla é obrigada a deixar o animal imediatamente quando ordenado pelo juiz de pista.

O caminho para contestar existe, mas é o recurso formal — não a discussão na hora.

Firmado, nunca alavancado

O regulamento é explícito quanto ao momento do julgamento: o boi deve ser julgado quando estiver totalmente firmado, jamais alavancado.

Ou seja, o juiz espera o animal estabilizar antes de decidir. Um boi em movimento de levantar, ainda em desequilíbrio, não está em condição de ser julgado.

As quatro palavras do julgamento

O vocabulário oficial da vaquejada é curto e cada termo tem definição regulamentar própria:

  • Valeu o boi — êxito do competidor.
  • Zero — ausência de êxito.
  • Retorno — anulação daquela apresentação. Não é punição: a dupla ganha nova oportunidade.
  • Desclassificação — eliminação do competidor.

A diferença entre zero e retorno é a que mais confunde. Zero é resultado; retorno é anulação. Um zera a tentativa, o outro a apaga.

A largada: onde muitos zeros acontecem antes da corrida começar

Boa parte das regras da vaquejada trata de um momento que dura poucos segundos: a abertura da cancela do brete. E o regulamento é rigoroso, porque é ali que se garante que as duas duplas larguem em condições iguais.

Posição obrigatória no muro

No momento em que a dupla autoriza a abertura da cancela, sob pena de julgamento igual a zero:

  • O vaqueiro-puxador deve estar encostado ao muro;
  • O vaqueiro-esteireiro deve estar encostado ao muro e a uma distância mínima de 1 metro da saída do brete, respeitando uma linha demarcada no muro com 20 centímetros de espessura.

Até a saída do boi, o cavalo de esteira não pode ultrapassar essa linha. E a norma define com precisão o que é “saída do boi”: o momento em que o animal se coloca inteiramente para fora do brete.

Corrida baiana e troca de lado

É proibida a chamada corrida baiana — a dupla largar do mesmo lado na saída do boi.

Também é vedado que um dos cavalos passe do seu lado para o outro depois que a porteira do brete é aberta, e principalmente no instante da saída do boi, sob pena de o boi ser julgado zero.

A regra vale independentemente de a manobra ser intencional ou não. Há uma exceção: se o cavalo do puxador passar para o lado do de esteira depois da abertura da cancela e conseguir voltar ao seu lado de largada antes do boi sair, a apresentação segue normalmente.

Se apenas um dos vaqueiros da dupla se apresentar no prazo estabelecido, o boi é solto e a dupla recebe zero.

Durante a corrida: o que anula e o que dá direito a retorno

Queda involuntária do boi

O critério é geográfico. Se o boi cair involuntariamente até a primeira faixa de pontuação, a dupla tem direito a retorno. Se a queda involuntária acontecer depois da primeira faixa, o resultado é zero.

Tope do cavalo

Aqui o regulamento é duro com o competidor. Se durante a corrida houver tope do cavalo — com ou sem queda —, o boi será julgado conforme sua posição, sem direito a retorno.

O boi que roda na faixa de tolerância

Se o boi rodar duas vezes dentro da faixa de tolerância, ele deve ser liberado imediatamente pela dupla, e um boi de retorno é disponibilizado.

O regulamento prevê o conflito típico dessa situação: quando o locutor manda deixar o boi alegando que ele rodou duas vezes ou mais, e o vaqueiro insiste.

Nesse caso, se ficar comprovado que o boi realmente girou duas vezes ou mais dentro da faixa de tolerância, o boi é julgado zero, independentemente do resultado obtido. Se ficar comprovado que não girou, ele é julgado normalmente.

Há ainda outra regra de direção: entre a faixa de tolerância e a primeira faixa de pontuação, qualquer mudança de direção do boi a partir de 180° é considerada retorno, e a dupla deve deixar o animal livre imediatamente.

Dificultar a passagem do boi

É terminantemente proibido dificultar a passagem do boi, sob pena de zero.

O regulamento define o que isso significa: quando o bovino está totalmente fora do brete, buscando passar pelo lado certo, e os dois cavaleiros ficam à sua frente. Se isso acontece e o boi volta, o julgamento é zero.

Da mesma forma, se a corrida está vindo certa — com o boi no meio dos cavalos, pelo lado certo —, os competidores não podem tomar a frente do animal.

E o juiz tem poder discricionário: se entender que o vaqueiro está propositadamente impedindo a passagem do boi, pode julgar zero.

Regras da Vaquejada

O protetor de cauda também entra no julgamento

O protetor de cauda é obrigatório em toda vaquejada — o regulamento não admite exceção — e o modelo precisa ser previamente credenciado junto à ABVAQ.

Mas ele não é apenas um item de segurança: é uma variável do julgamento.

Se o protetor se soltar involuntariamente durante a apresentação, a dupla tem direito ao retorno, seguindo os critérios do Manual de Julgamento de Boi emitido pela ABVAQ.

As circulares das provas oficiais da ABQM detalham as situações:

  • Protetor solto entre as faixas, antes de o boi dar ponto, com o animal se firmando fora: retorno.
  • Protetor solto após o segundo cal: zero.
  • Constatado que os competidores retiraram ou folgaram o protetor propositalmente: zero.

A responsabilidade pelo ajuste correto do protetor é dos profissionais de curral, que devem posicioná-lo de modo a não prejudicar a integridade física do animal nem atrapalhar a ação do competidor.

O boi é intocável

Essa é uma das regras mais categóricas do regulamento. Sob pena de zero, os cavaleiros não podem bater no boi, tocar sua face ou se apoiar em seu lombo — a norma resume dizendo que o boi é intocável, com ressalva apenas para evitar a queda do vaqueiro ou para toques involuntários.

Existe ainda uma regra que age depois do julgamento: se, após o boi ser julgado, o competidor açoitar seu cavalo sobre o bovino, o boi é julgado zero independentemente do resultado anterior. Ou seja, dá para perder um boi que já tinha valido.

É proibido o uso de chicotes, tacas, tapas no cavalo ou qualquer objeto que possa causar dano ao animal — esteja ele correndo ou parado, dentro ou fora da arena.

A luva do competidor é vistoriada antes da corrida e precisa seguir o padrão da ABVAQ: o pitoco (ou toco) sem quina, sem inclinação e com até 5 centímetros de altura.

São proibidas luvas de prego, ralo, parafusos, objetos cortantes ou qualquer artifício que danifique o protetor de cauda ou a integridade física do bovino.

Mesmo depois de aprovada na vistoria, a luva pode ser rejeitada em pista pelo juiz se estiver causando dano ao animal — e a substituição é imediata, sob pena de zero.

Encerrada a apresentação, os competidores devem se dirigir imediatamente à porteira de saída da pista e aos juízes de bem-estar animal, para a inspeção da integridade física dos animais. Qualquer conduta diversa resulta em zero.

Não concordou com o juiz? Como funciona a comissão alternativa

A vaquejada tem uma estrutura de arbitragem em dois níveis, e essa é uma das particularidades da modalidade.

O primeiro julgamento é do juiz de pista, designado pelo promotor do evento e auxiliado por um anotador de pontos.

Se o competidor não se sentir satisfeito com o resultado, pode recorrer à comissão alternativa, mediante pagamento de taxa previamente estabelecida pelo promotor.

A regra que protege o competidor

A comissão alternativa só pode dar zero a um boi em julgamento se tiver como provar — por imagem, áudio ou outros recursos tecnológicos oficiais do evento. Na dúvida sem prova, não há como zerar.

Para isso funcionar, o regulamento exige uma estrutura de filmagem específica: três câmeras ativas, sendo uma fixa cobrindo todo o final da pista de competição e duas com operador na faixa de pontuação, alinhadas com o segundo cal.

As gravações dos bois enviados à comissão alternativa devem ser mantidas por no mínimo 30 dias após o evento.

Há também uma regra de impedimento: o juiz que atuou na pista não pode julgar, na alternativa, o boi que ele mesmo julgou. E juízes que estejam trabalhando em uma vaquejada não podem competir como vaqueiros no mesmo evento.

Prazos para recorrer

Os prazos são curtos e variam conforme a fase:

  • Fase classificatória: o pedido deve ser feito dentro do mesmo dia, até o final da apresentação da categoria do competidor.
  • Fase de disputa: antes do término da rodada.

Perdido o prazo, não há mais recurso possível.

Boi de terceiro

Um detalhe pouco conhecido: um competidor pode solicitar o julgamento do boi de outro competidor pela comissão alternativa, desde que se sinta diretamente prejudicado e esteja envolvido na competição.

Nesse caso, a taxa é cobrada em dobro. O pedido pode ser feito tanto na classificação quanto na disputa.

Há ainda uma instância de revisão técnica: depois do julgamento pela comissão alternativa, o competidor pode requerer análise da ABVAQ para aprofundar o julgamento televisivo.

Mas essa análise serve unicamente para verificar o trabalho técnico dos juízes — não muda o resultado para fins de premiação e classificação.

Todo boi vale o mesmo: por que a vaquejada não tem nota

Essa talvez seja a diferença estrutural mais importante entre a vaquejada e as outras modalidades julgadas do cavalo Quarto de Milha.

Enquanto provas como Rédeas e Apartação atribuem notas técnicas graduadas, o regulamento da vaquejada estabelece que todo boi tem o mesmo valor de pontuação.

O julgamento é binário: valeu ou zero, com o retorno funcionando como terceira categoria de anulação. Não existe boi que valha mais por ter sido derrubado com mais estilo, mais rápido ou mais no centro da faixa. Ou está dentro das regras, ou não está.

Isso explica o formato das provas. Na estrutura tradicional, o competidor passa por uma fase de classificação, puxando dois, três, quatro, cinco ou seis bois, conforme o evento, e “bate a senha” quem atinge a pontuação mínima exigida. Depois vem a disputa, fase eliminatória em que as duplas correm boi a boi.

Existe ainda a chamada senha limpa: aquela em que o vaqueiro não rodou o boi dentro da faixa de tolerância, não correu no rabo da gata e, em caso de senha bonificada, não utilizou o boi de bonificação.

Quem bate senha limpa pode ser classificado direto para a segunda rodada da disputa — mas essa ascensão é facultativa ao diretor da prova e, quando adotada, só pode se dar por critério técnico.

O regulamento veda expressamente conceder essa vantagem por senhas antecipadas, pagas em espécie ou qualquer outro meio.

O que mudou nas provas oficiais da ABQM

Nas provas oficiais e oficializadas pela Associação Brasileira de Criadores de Cavalo Quarto de Milha, o Comitê Nacional de Vaquejada implantou ajustes de regra que alteraram a dinâmica da competição:

  • Por motivo de maçaroca (insuficiência de cauda), o boi passa a ser julgado — não há mais boi de reposição por esse motivo.
  • A dupla que tiver êxito nos quatro bois de classificação sem girar o boi dentro da faixa de tolerância fica automaticamente classificada para a segunda rodada da disputa.
  • Em caso de tope ou queda de qualquer dos cavalos, o boi será julgado, sem reposição.
  • Na largada, sob pena de nota zero, o cavalo de puxar deve estar encostado paralelamente ao muro ao pedir a abertura da cancela.

Vale entender como os dois regulamentos se articulam, porque isso costuma gerar confusão. Nas situações não previstas pelo regulamento da ABVAQ, aplica-se subsidiariamente o regulamento da ABQM.

Em sentido inverso, a ABQM determinou que qualquer evento de vaquejada realizado no mesmo recinto onde ocorre prova oficializada por ela só pontua para Registro de Mérito se seguir o regulamento da ABVAQ.

Além disso, todo evento de vaquejada legal exige chancela prévia da ABVAQ, e juízes, locutores e demais profissionais de trabalho precisam ser certificados pela associação — incluindo funções pouco conhecidas do público, como o anotador de pontos e o calzeiro, responsável pela demarcação das faixas de cal.

Uma medida que ainda gera divergência

Vale registrar um ponto que qualquer pessoa que pesquise as regras da vaquejada vai encontrar em versões conflitantes: a largura da faixa de pontuação.

O Regulamento Geral de Vaquejada da ABVAQ define a distância entre as duas linhas em 9 metros. Já a página institucional da própria associação, materiais de imprensa e regulamentos de eventos regionais mencionam 10 metros.

A explicação mais provável é histórica. Segundo o relato da própria ABVAQ sobre a evolução do esporte, as primeiras vaquejadas eram disputadas na faixa de 6 metros, medida que exigia sobretudo força do vaqueiro.

Entre os anos 1980 e 1990, a faixa passou para 10 metros — mudança que deslocou o eixo da prova da força para a técnica.

Os 9 metros seriam, portanto, a medida regulamentar mais recente, e os 10 metros a referência histórica consolidada no vocabulário do meio.

Não localizamos, porém, nenhuma fonte que declare essa conciliação de forma explícita. Até que a ABVAQ ou a ABQM esclareçam o ponto publicamente, o mais correto é tratar 9 metros como a medida do regulamento e 10 metros como a referência usual — sem afirmar categoricamente que uma substituiu a outra.

Por que conhecer o regulamento muda o que você vê na pista

A vaquejada é frequentemente descrita como um esporte de força bruta. O regulamento conta outra história: a maioria das regras trata de posicionamento, de milímetros de cal, de segundos de trabalho e de prova audiovisual.

O julgamento é binário justamente porque a exigência está em cumprir um padrão, não em superá-lo com estilo.

Para entender o conjunto da modalidade — origem, papéis da dupla, categorias, calendário e situação legal —, vale começar pelo nosso guia completo sobre o que é vaquejada e como funciona a prova.

Rodrigo Melo

Criador e entusiasta da raça Quarto de Milha. Por volta dos meus seis anos ganhei meu primeiro cavalo e nunca mais consegui viver distante desses magníficos animais que tantas coisas boas nos proporcionam nessa vida, como amizades, realizações, momentos de alegria e muitas histórias pra contar. E aqui pretendo compartilhar algumas delas.

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