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Laço em Dupla (Team Roping): o Guia Completo da Modalidade

O Laço em Dupla, também chamado internacionalmente de Team Roping, é uma das provas mais técnicas e mais bonitas de assistir no universo do Cavalo Quarto de Milha.

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Dois cavaleiros, dois cavalos e um boi: o objetivo é laçar a cabeça e as duas patas traseiras do animal no menor tempo possível, com sincronia entre a dupla que só vem de muito treino.

Neste guia você encontra a mecânica completa da prova, a história da modalidade nos Estados Unidos e no Brasil, como funciona o sistema de handicap que nivela iniciantes e profissionais, e os nomes brasileiros que já romperam fronteiras dentro do esporte.

O que é o Laço em Dupla (Team Roping)

O Laço em Dupla é uma prova cronometrada disputada por dois cavaleiros montados, cada um com uma função específica: o cabeceiro, responsável por laçar a cabeça do boi, e o pezeiro, que laça as duas patas traseiras do animal logo em seguida.

A dupla que completar a prova corretamente no menor tempo vence. É a única prova genuinamente de dupla do rodeio profissional — e uma das poucas modalidades esportivas do rodeio em que homens e mulheres podem competir juntos, formando duplas mistas.

Como funciona a prova, passo a passo

Entender a mecânica do Laço em Dupla é entender por que ela separa tão bem quem treina sério de quem está começando. O percurso de uma passada tem etapas bem definidas:

A largada e a barreira

O boi sai de um compartimento chamado brete. Na frente do brete do cabeceiro fica esticada a barreira, uma corda presa por um disparo fácil que garante ao boi uma vantagem de saída proporcional ao tamanho da arena.

Se o cabeceiro sair antes do boi completar essa vantagem — o que se chama “queimar a largada” — a dupla recebe uma penalidade de 10 segundos somados ao tempo final.

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A laçada de cabeça: só existem três formas legais

O cabeceiro tem exatamente três opções de laçada legal: os dois chifres, o pescoço, ou meia-cabeça (um chifre mais o focinho).

Qualquer outra pegada — como laçar apenas um chifre sem o focinho — desclassifica a dupla. Depois de laçar, o cabeceiro vira o cavalo para a esquerda, expondo as patas traseiras do boi para o pezeiro, e faz o dally: enrola a corda no cepo da sela (o “pito”), coberto de borracha para não escorregar.

A laçada de pés e a regra do crossfire

O pezeiro precisa laçar as duas patas traseiras do boi. Se pegar só uma, a dupla leva 5 segundos de penalidade.

E existe uma regra que muita gente de fora do esporte não conhece: o pezeiro só pode jogar a corda depois que o cabeceiro tiver completado a virada do boi. Se ele jogar antes disso, é crossfire — e o resultado é desclassificado, sem tempo registrado.

Quando o cronômetro para

O tempo é encerrado quando os dois cavaleiros estão de frente um para o outro, com as cordas esticadas e sem folga, e os cavalos alinhados. O boi pode continuar em pé — o que importa é a imobilização pelas duas laçadas.

Variações de formato

Nem todo evento de Laço em Dupla segue exatamente o mesmo formato:

  • Heading and Heeling: o formato padrão, com cabeça e pés na mesma passada — é o que se vê na maioria dos rodeios.
  • Eventos só de cabeça ou só de pés: jackpots voltados para quem quer treinar ou competir focando em apenas uma das duas funções.
  • Lap-and-tap: largada sem barreira, mais comum em treinos e provas informais.
  • Modalidade julgada (AQHA): nesse formato, cavalo de cabeça e cavalo de pé são inscritos e avaliados separadamente por uma nota de 0 a 100 (a média é 70), com limite de um minuto e até duas tentativas de laçada por corda. Aqui o que se avalia é a qualidade do cavalo, não o tempo.

Cabeceiro e pezeiro: funções, cavalos e cordas diferentes

Cabeceiro e pezeiro não são só posições diferentes na prova — são funções que exigem cavalos treinados de formas distintas e equipamento próprio.

O cavalo de cabeça precisa de arrancada forte, aceleração rápida e o que os treinadores chamam de “rate”: a capacidade de acompanhar o ritmo do boi sem se afastar.

Já o cavalo de pé precisa de posicionamento fino e de “sentar” bem na parada, no momento em que o pezeiro está mirando as duas patas traseiras.

O equipamento também muda: a corda de cabeça costuma ter entre 9 e 9,75 metros e é mais macia, para fechar rápido ao redor dos chifres.

A corda de pé é mais longa — em torno de 10,7 a 11 metros — e mais rígida, para manter a “armadilha” aberta o suficiente e prender as duas patas de uma vez.

As selas usadas na modalidade têm reforço extra e o cepo revestido de borracha, justamente para segurar o dally sem escorregar.

Da lida de rancho ao esporte profissional: a história do Laço em Dupla

Origem no trabalho de rancho

O Laço em Dupla nasceu como técnica de trabalho, não como esporte. Caubóis mexicanos e californianos desenvolveram o método para conter e imobilizar animais adultos grandes demais para um só cavaleiro segurar sozinho — situações como marcação de gado e tratamento veterinário no campo.

É uma das poucas provas do rodeio que ainda carrega, quase intacta, a utilidade original da técnica.

A revolução do “dally” e a profissionalização

Até meados do século 20, existiam dois estilos concorrentes nos Estados Unidos: o “team tying” (mais comum no Arizona, Novo México e oeste do Texas) e o “dally roping” californiano — o estilo que conhecemos hoje, de enrolar a corda no cepo da sela em vez de amarrá-la fixa.

O estilo dally ganhou força a partir do fim dos anos 1960, puxado pelo trio de irmãos Camarillo (Leo, Reg e Jerold), que levou a técnica ao rodeio profissional.

Leo “The Lion” Camarillo chegou a vencer quatro títulos mundiais da modalidade. No fim dos anos 1970, a chegada de Jake Barnes e Clay O’Brien Cooper marcou a virada para o estilo rápido e “limpo” que se vê nas provas de hoje.

A chegada e o desenvolvimento no Brasil

No Brasil, a história do Laço em Dupla está diretamente ligada à chegada do Quarto de Milha ao interior paulista, por volta de 1955, na região de Rancharia.

O Rancho Quarto de Milha, fundado em 1974 em Presidente Prudente (SP) e dono da maior arena coberta da América Latina, sediou o primeiro Campeonato Nacional de Team Roping do país e foi decisivo para espalhar a modalidade pelo Brasil — inclusive trazendo treinadores americanos, como Bob Seels, já em 1975.

Não é força de expressão chamar Presidente Prudente de “Capital do Laço”: só num raio de 100 km da cidade existem hoje mais de 300 pistas, entre oficiais, centros de treinamento e fazendas particulares.

Sistema de handicap: como iniciante e profissional competem no mesmo dia

Uma das razões do Laço em Dupla ter crescido tanto é o sistema de handicap por número — parecido, guardadas as proporções, com o handicap do golfe.

Nos Estados Unidos

Criado em torno de 1990 com a fundação da USTRC por Denny Gentry (há divergência entre fontes sobre a cidade exata da fundação), o sistema dá a cada roper um número de habilidade — de 1 a 9 para cabeceiros e de 1 a 10 para pezeiros.

Os números da dupla se somam para definir a divisão em que ela compete: dois competidores #5, por exemplo, formam um time #10.

Em 2010, a WSTR trocou a escala original de nove números por uma escala de 18 pontos, criando os chamados “meio-números” (plus), que viraram padrão do setor.

Hoje o sistema unificado se chama Global Handicaps e é usado por mais de 200 mil ropers nos Estados Unidos.

Laço em Dupla (Team Roping)

Prova de Laço em Dupla

Team Roping No Brasil

A ABQM sanciona oficialmente o Laço Cabeça, o Laço Pé e o Laço em Dupla, com um handicap próprio chamado HNLD (Handicap Nacional de Laço em Dupla), que inclui categorias como Amador Light (até 2,5 bois) e Amador Principiante (até 1,5 boi).

Desde julho de 2023, o Laço em Dupla também passou a integrar o Potro do Futuro e o Derby da ABQM.

O calendário competitivo brasileiro tem hoje vários circuitos regionais fortes — entre eles o CPLD (Circuito Paranaense de Laço em Dupla), o CPTR (Campeonato Paulista de Team Roping), o ETR (Elite Team Roping, voltado a profissionais) e o CNTR, sediado em Goiás.

Os números de premiação e inscrição desses circuitos que circulam em portais do setor são expressivos — casas de centenas de milhares de reais por temporada em mais de um circuito — mas vêm dos próprios organizadores, não de fonte auditada, e devem ser lidos como direcionais.

Brasileiros que romperam fronteiras no Team Roping

Nenhum nome brasileiro carrega mais peso internacional no Laço em Dupla do que Junior Nogueira, de Presidente Prudente (SP).

Ele começou a laçar aos 4 anos, profissionalizou-se no Brasil aos 14, e se mudou para os Estados Unidos em 2014 sem falar inglês e sem cavalo próprio — apadrinhado pelo heptacampeão mundial Jake Barnes.

Foi o primeiro brasileiro a se classificar para o National Finals Rodeo na modalidade, o primeiro campeão mundial brasileiro da PRCA (all-around, 2016), e bicampeão mundial de pezeiro ao lado de Kaleb Driggers (2021 e 2022).

É também campeão mundial pela AQHA — montando a égua Quarto de Milha Apache R Hali, o que faz dele uma referência que atravessa o esporte e a genética da raça ao mesmo tempo.

Vale uma distinção importante: Junior Nogueira compete no Laço em Dupla (Team Roping). Já Marcos “Marquinhos” Costa, outro brasileiro de peso na PRCA e primeiro brasileiro nativo a vencer um mundial de tie-down roping (2017), compete no Laço Individual — uma modalidade diferente, embora os dois apareçam juntos com frequência como referências brasileiras no rodeio americano.

Recordes e curiosidades

O tempo de referência histórico da modalidade na PRCA — 3,3 segundos — foi estabelecido em 2009 e igualado por diversas duplas ao longo de 16 anos, incluindo a brasileira Kaleb Driggers e Junior Nogueira, no NFR de 2017.

Em junho de 2025, esse recorde finalmente caiu: Mason Appleton e Rance Doyal fecharam uma passada em 3,2 segundos no Snake River Stampede, em Idaho — a primeira dupla da história abaixo dos 3,3s no ProRodeo.

Quarto de Milha: o cavalo por trás do Laço em Dupla

Não é acaso que o Quarto de Milha domine o Laço em Dupla. A largada explosiva, a aceleração em curta distância e a capacidade de parar bruscamente e sustentar tração — características que definem a raça desde sua origem — são exatamente o que a prova exige, tanto do cavalo de cabeça quanto do cavalo de pé.

Se você está estruturando o catálogo do seu haras ou buscando genética voltada para laço, vale conhecer as linhagens de trabalho do Quarto de Milha dentro do Mercado Quarto de Milha.

Perguntas frequentes sobre o Laço em Dupla

Como funciona a prova de Laço em Dupla?

Dois cavaleiros — cabeceiro e pezeiro — trabalham em dupla para laçar um boi, primeiro pela cabeça e depois pelas duas patas traseiras, no menor tempo possível, com penalidades específicas para saída antecipada, laçadas incompletas e crossfire.

Team Roping e Laço em Dupla são a mesma coisa?

Sim. Team Roping é o nome em inglês da modalidade; Laço em Dupla é o nome usado oficialmente no Brasil, inclusive pela ABQM.

Como funciona o handicap no Laço em Dupla?

Cada competidor recebe um número de acordo com o nível técnico. A soma dos números da dupla define em qual divisão ela compete, o que permite iniciantes e profissionais disputarem no mesmo evento, em categorias equivalentes.

Quais são as outras modalidades de laço, além do Laço em Dupla?

Além do Laço em Dupla, existem o Laço Individual (tie-down), o Laço Comprido e o Breakaway Roping, cada um com regras e objetivos próprios.

Se você quer entender como o Laço em Dupla se compara às outras provas de laço da raça Quarto de Milha, confira nosso artigo sobre as principais provas de laço.

Gil Silva

Gil Silva é jornalista especializada na cobertura da raça Quarto de Milha, com seis anos de atuação em provas oficiais, eventos técnicos e competições das principais modalidades. Ao longo da carreira, acompanhou campeonatos, leilões e iniciativas do setor, produzindo reportagens, entrevistas e conteúdos informativos voltados a criadores, competidores e profissionais da área.

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